GilmarJunior

Textos de minha vida.

Quarta-feira, Outubro 08, 2008

Angústia



O professor falou-lhe que seria um insigne escritor. “Dou-lhe apenas o tempo”, disse, os livros à mão, a pressa nos olhos. Ficou na sala vazia. Pé ante pé, os minutos roçavam nos ponteiros como a lassidão em digerir tal elogio.
Empertigou-se, a mochila cobriu-lhe as costas em alinho. Ganhou a rua, o céu azul lhe parecera mais perto. Poderia alçá-los com as mãos? Não sabia, tampouco se deteve nessa demanda. Quimera ou não, a fama acudi-lo-ia em apuros de estima.
Voltou-se para a rua, o ônibus não chegava. A euforia quedou-se. O medo apossara-se dele. O que fazer até lá? Haveria vida pré-fama? A unha menor começou a sucumbir diante das invectivas dos dedos maiores. O que seria dele até a descoberta? Entraria com mais desconhecidos, rostos convulsionados de cotidiano, que não compartilhariam a vitória eminente. Mas eminente quando? Contava nos dedos um tempo imensurável, sem pistas. Apenas lhe aliciavam. A tal fama, não saberia divisar-lhe o rosto.
Veio a condução, entrou nela empurrado pelo marasmo dos outros. Não precisava contar notas, o cartão lhe salvou desse embaraço. Ao léu, achegou-se a um banco, tão aleatório quanto os pensamentos. Esqueceu a mochila nas costas, parecia um matuto.
O som do motor ditava-lhe os pensamentos. Quis voltar à aula, procurar o professor, inquirir-lhe uma data precisa. Quando seria a redenção? A janela estava pouco empoeirada, havia chovido por aqueles dias. O sol tímido não secara a terra em absoluto. Portanto, a poeira não se ergueria de pelotão completo. Era recém segunda-feira.
Viu-se no vidro. Estranhou os ombros acabrunhados, nada lhe pesava para estar tão vexado. Porém, o vazio lhe açoitava com ardor. A viagem, transfigurada em via-crúcis, mostrava um cenário acinzentado.
Essa fama. Ouvira dela tantas definições, alguns rumores e poucas certezas de como obtê-la. Ruminava cenas de holofotes em mansões imaginárias, mãos erguidas como escudos e rictos de cólera. Ao largo, passavam-lhe sombras obscuras, cujas origens lhe fustigavam a imaginação já assoberbada de preocupações.
A cabeça vergou-se nas palmas das mãos. Suspirou alto, olhos vizinhos caíram-lhe nos ombros. Quisera viver para sempre no ocaso, estar imerso num ostracismo indigesto, mas tudo isso seria suportável se o fosse desconhecido.
Quis procurar o céu. As casotas não lhe embaraçavam o desígnio. Pululavam pequenos cristais, a luz cegara-o por instantes. Tudo branco, supôs a visão de um anjo. Haviam lhe contado que todos os seres benévolos seriam brancos. Crespou o cenho, em represália às lembranças.
Não logrou êxito em entrever Deus. Ele não o ajudaria, se não ouvisse seu propósito, seu problema, sua angústia. Restabelecida a visão, o medo de uma vida medíocre lhe invadira novamente, com efeito de borrasca após anos de bonança. Cobiçou os lunáticos do prédio carcomido e quedo do hospício, que vagaroso se exibia aos passageiros do coletivo. Eles não tencionavam coisa alguma. Cada loucura era um espetáculo único e inédito. Eis a razão por que todos enlouquecem em algum estágio dessa inconstante toada.
Uma senhora quebrou-lhe o amofinamento. Sequer a olhou, imputou-lhe severos anos pelo perfume de sabonete que ela exalava. O colar da mão direita dela tilintava a cada solavanco.
O olhar buscava um ponto o qual não podia exprimir nem sugestionar. Abriu a mochila. Lançou no colo uma página, com um conto curtíssimo. Pôs-se a ler, esquecendo a senda da avenida.
Demorou os olhos no derradeiro ponto final, quando sua letargia perde-se no passado graças à exclamação da senhora ao lado. “Nossa, até eu me angustiei”, disparou. Sem ponderar uns olhos incrédulos que se esboçavam, ela arrematou: “Tem jeito de escritor”.
Um gosto mau encheu-lhe a boca. Apertou o olhar, que ficou no mesmo ricto da boca insípida. A velhinha, sem suspeitar de tantos torvelinhos naquela cabecinha, piscava em petição de conversa.
Guardou a folha única. Os olhos não o deixavam levantar-se, balouçavam num vórtice inesperado. Os segundos, ainda que poucos, pareciam imensos, uns totens de concreto maciço, a ameaçá-lo com a derrocada iminente.
Esqueceu a velha, levantou-se, sem pedir licença. Tampouco se virou: a senhora o ameaçara com uns olhos viperinos de desdém.
Ia confiante, descer num ponto que não era seu. A mão levada à altura do estômago, os olhos espremidos e um silvo agudo antecederam sua queda ao chão do ônibus. Caiu de joelhos, a cabeça buscava um anteparo. Os olhos esqueceram-se das angústias por um momento. A dor suplantara os anseios de sua alma.
Buscou a idosa outrora ignorada. Os olhos dela não lhe eram mais perversos. Cambaleante, ela se chegou, os braços lhe pareciam asas de anjo. Chilreou algo ao pé do ouvido. A dor, contudo, deixara-o imobilizado; mas não havia esvaído de si o egoísmo de antes.
Veio célere e fora lépido o mal-estar. De joelhos, não ouvira coisa alguma dos passageiros. Apenas buscou o céu, coberto por um teto de aço malbaratado pelo uso perene. Pensou estar num genuflexório contrafeito.
Livrou-se dos braços providenciais, sem contentar a curiosidade dos presentes. Acenou para a velhinha, a contragosto. O fel da dívida lhe impelira o braço num gesto mecânico e frio.
Apertou a cordinha e quis descer. O teatro da dor fora-lhe a gota d'água do opróbrio em público. Achar-lhe-iam louco, tresloucado, perturbado. Até pensou ter visto uma mulher de saia comprida, com folhetos evangélicos em riste. Os olhos que fingiam paz falavam num Deus que parecia mais distante a cada segundo de angústia.
Até ilusões o atemorizavam. Já ao ar livre, não sabia onde estava. Não havia conhecidos onde descera. Pôs a mão no bolso, sentiu a falta de algo. Olhou para trás, próximo à calçada jazia a carteira. Riu-se e, lentamente, foi até lá. Abaixou-se, não gostava da foto do documento. Atestava uma época ruim, de uma doença que quase lhe impedira o sonho de estudar.
Alumbrado com tais memórias, um carro ultrapassou uma carroça e, sem tempo de frear, bateu-lhe na cabeça. A batida girou-lhe rápido. A têmpora direita afundara. Veios de sangue tingiram-lhe o cenho, que não demonstrava dor, arrependimento ou culpa. Estivera feliz, ao olhar a foto e perceber que permanecia vivo após a descoberta de uma doença tão inesperada. O corpo caiu poucos segundos após a colisão. O carro não parou.

Sexta-feira, Agosto 22, 2008

Infortúnio

O vento erguia umas folhas ressequidas na avenida. Os carros as pisoteavam, sem piedade. Uma senhora de alpargatas, sacolas amarelas à mão, balbuciava monossílabos, os lábios se mexiam em convulsão contida. Outro senhor, o olhar aquilino buscava um ponto inexistente para todos ali. Uma mulher, a criança na mão direita, retesava o fino casaco, diante das invectivas do vento um pouco frio. Meus pêlos do braço eriçavam-se.

Um ônibus dourado virou, os vidros refletiam as pesadas nuvens, que assustavam os incautos sem guarda-chuva. A mulher foi a primeira a acenar. Como dominós em desabalada queda, a porta estreita não era páreo para tantas pernas a subir. Lembrei-me, as moedas na mão cerrada, de um velho adágio bíblico, dito como chiste pelos meus velhos, a fim de pungir as diabruras infantis. “Tornou, pois, Jesus a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas”. Mas que rebanho disforme lhe era dado!

Entram sem cerimônia, os olhos fixos num espaço a ser buscado. Quiçá houvesse um lapso de ar para os dedos viverem lépidos. Roçavam-se sem consentimento, sem estreiteza.

A roleta me parecia um sonho distante. Tudo era cinza, um fogo campeou pelos saiotes de mau gosto e ali ficaram os despojos. Doía-me a mediocridade do ônibus. Haveria tantos outros, assim novos, de estofados coloridos. E subsistiriam neles as velhas de turbante, uns tecidos desbotados de idade e de qualidade ruim. As crianças faziam uma higiene porca, as mãozinhas esfregavam rostos convulsionados.

Joguei as moedas nas mãos do cobrador, cujos olhos aquilinos contavam mentalmente a pífia quantia. Foram segundos longos, como uma serpente no rio, abafada pelo celebrar do sol dos passarinhos.

Perscrutei um lugar vago. Em vão. Bancos já previamente aquecidos, tudo fatigado pelo peso de rostos que jamais veria novamente. O mundo é uma carrossel infinito. Deus sempre me oferece cartas novas; o baralho dele parece não ter regra.

Soergui minha mão sobre a cabeça e, débil, busquei um cilindro de ferro amarelo como esteio. Suponho que os motoristas possuem uma séria mácula de caráter. Eu vi que o senhor olhara pelo retrovisor, baixara os olhos e, sem reprimir um ricto afortunado, afundara o pé direito no acelerador. Ao trote do bailo, uma dança inaudita tomou conta dos corpos eretos. Busquei os olhos dele, sem êxito. Respirei pesadamente, à moda de tísicos. Nada de o motorista me olhar. Eu sorriria, para mostrá-lo o malogro de seus desígnios sádicos.

Fiquei alheado do desconforto do coletivo, quando uma senhora tentou passar a roleta. Ela enfiou as mãos no avental, já preenchendo com os quadris o espaço da catraca. Uma fila indiana se formara atrás dela. O tilintar dos metais não deixava em paz o rosto enegrecido dela. Havia uns sulcos profundos, daqueles que canalizariam eventuais lágrimas. Com certeza, seria um espetáculo vê-la chorando.

Um murmúrio se ergueu da frente do ônibus. O queixume assumiu forma num uníssono. As pessoas precisavam descer. Éramos todos doentes, urgia ir ao posto de saúde. Somente a doença incute forças terminais a quem já desistiu de viver.

A negra tirou as mãos do avental e as levou à boca. A pobreza não escamoteia apenas o material: ela é perversa e despe os acometidos por ela de toda austeridade vocabular. A senhora, de saiote degolado, adquiriu olhos amarelos. Tartamudeou, a princípio. Ergueu as mãos diante do cobrador, desculpando-se pelo engano. Faltou-lhe apenas jurar que não seria embuste.

Um garoto levantou-se detrás de mim. Era igualmente negro, mas sem carquilhas na face. Trouxe minha bolsa junto a mim, num ato invito de preconceito. Arrependi-me depois, e minha mão granjeou uma força menos rija para segurar meus pertences. Ele não me roubaria, pensei.

O rapaz enfiou os dedos na puída calça e sacou o valor exato da passagem. Estendeu as moedas; a senhora, em dor plangente e atônita, não notou a investida. Um homem, visivelmente agastado, tocou-lhe o ombro. A negra foi lançada contra a roleta. E assim acordou do drama pessoal.

Pegou as moedas da mão flutuante. Entregou-as ao cobrador, despejando saliva e mesuras exageradas. A fila sumiu.

Desci junto ao burburinho. Não olhei para trás, enfastiou-me a viagem. Uns pingos órfãos começaram a cair do céu. Chuva tola e frouxa, pungia-me ainda mais. Logo eu, admirador das intempéries e exageros da natureza. Se for para molhar sem me empapar, que a chuva vá embora.

Torci os dedos para que não houvesse fila. Cerrei os olhos para que as pessoas sumissem. Exceto o médico. O meu médico. O rasgo de egoísmo desaguou em um quase sorriso. O saguão estava vazio. Fui ao guichê. Pediram-me a identidade. Botei a mão no bolso de trás. A carteira havia sumido.

Incontinenti, saí de lá, a atendente, fria como mármore, sequer articulou um “senhor?”. A chuva se dissipara, o solo estava manchado como um dálmata. A carteira estava deitada, ainda mantinha o brilho do couro preto. Fui até lá, quase acabrunhado para pegá-la do chão. “Minha”, disse-me uma voz esganiçada. Subi os olhos e vi o rapazote do ônibus. Não sorria, tinha um toco de navalha na mão que outrora passara moedas à senhora em apuros. Volvi-me, sem palavra. Não se deve dar as costas para o inimigo, veio-me. Voltei-me para ele. Os olhos dele tremiam. Ele padecia em parecer-me mau.

Num arroubo, pus a mão sobre a carteira. Ele ensaiou um ataque. Tirei as notas, sem esboçar proteção e joguei-as ao léu. Ele as pegou no ar, a lâmina morreu no esquecimento de ambos.

Não pensei no dinheiro e vi o jovem de costas, a correr. Minhas notas talvez serviriam para outra senhora em apuros.

Conto escrito por Gilmar Luís (professorgilmarluis@gmail.com)

Quinta-feira, Março 22, 2007

Pet Shop Boys em Porto Alegre - imagens




Pet Shop Boys em Porto Alegre

A turnê FUNDAMENTAL, da consagrada banda inglesa Pet Shop Boys, mostrou ontem à noite no Gigantinho que Neil Francis Tennant e Christopher Sean Lowe continuam com a fórmula em dia para levantar o público e fazê-lo dançar. Mesclando sucessos do auge da New Wave com as últimas tendências da música eletrônica, o duo - que contou com a presença de dançarinos e da backing vocal Silvia, de vocais marcados pelo soul de Aretha Franklin - não permitiu que, em momento algum, o espetáculo esmorecesse.
O palco fora simples, mas de bom gosto. Um telão ao fundo projetava cenas dos videoclipes da banda. As luzes - carregadas de lilás - realçaram as roupas dos bailarinos. O vocalista Neil entrou no palco como um senhor inglês: de terno preto.
Na abertura, um hit novo: God willing - We're the Pet Shop Boys. Mesmo não muito conhecida dos brasileiros, a música foi o aviso de que o ritmo permearia todo o espetáculo. Em seguida, a conhecida Left to my own devices situa as milhares de pessoas que lá foram prestigiar o duo.
Os Pet Shop Boys alternaram novidades com clássicos. A décima segunda música, chamada Numb, mostra que Neil também sabe cantar baladas. No telão, imagens de refugiados em preto e branco destacaram a melancolia da bela letra, escrita por Diane Warren.
Numa antítese, a música seguinte foi uma combinação das dançantes Se a vide E e Domino Dancing. A primeira exibe um ritmo marcadamente brasileiro: a batida do nosso carnaval espantou a todos e o Gigantinho caiu na dança. Também pudera, a faixa integra o álbum Bilingual, de 1996, que conta com a participação do grupo brasileiro Olodum. A ponte para a clássica Domino Dancing foi ao natural.
Uma grata surpresa na décima quinta faixa do show: Neil se senta e dedilha um violão, na balada Home and dry. Para quem não sabe, o vocalista tocou numa banda folk chamada Dust entre 1970 e 1971. Novamente, a descida de tom quedou-se para os teclados portentosos de Always on my mind, clássico de Elvis Presley reinventado com muito apuro pela banda.
A seguir, a música Streets have no name mescla a letra original com trechos do hit Take my eyes off you. E, aproveitando o sacolejar incessante do público, o duo saca do fundo do baú West End Girls, de 1986.
Sodom and Gomorrah Show traz o vocalista e os dançarinos trajados com fardas, numa clara alusão ao fetiche que grassa pelo público homossexual. A letra também incute uma reflexão sobre o preconceito contra as minorias sexuais.
A dobradinha So Hard e It´s a sin joga o espetáculo no clima da nostalgia. Cantando apenas os clássicos que fizeram a fama dos Pet Shop Boys, Neil aproveita para apresentar a banda. A backing vocal Silvia arrancou aplausos entusiásticos. Ela se destacou em solfejos muito interessantes em algumas músicas, como em West End Girls.
Por volta da meia-noite, entra em cena a clássica Go West, que já avisava ao público a proximidade do término do show. Mais um grande sucesso.
Neil e Christopher retiraram-se do palco. Os bailarinos e Silvia interpretaram uma canção que era um medley com os títulos dos 21 sucessos do grupo. Algumas pessoas já deixavam o Gigantinho, quando o duo volta ao palco e termina o espetáculo com a conhecida Being Boring. Neil até disse, várias vezes, um obrigado carregado de sotaque, que encontrava eco na platéia.

Quinta-feira, Março 08, 2007

Homenagem ao Dia das Mulheres





Nas fotos, mulheres dos movimentos relacionados ao setor primário se reuniram depois das 14h em frente ao Palácio Piratini. Entre as reivindicações, elas exigiam o fim da plantação desenfreada de eucaliptos, o chamado "deserto verde". Tal iniciativa vem sendo aplicada por empresas de celulose, como a Aracruz. Mais de 100 ONGs integram a Rede Alerta, iniciativa que visa elucidar a população sobre a monocultura do eucalipto e do pinus, as duas madeiras das quais se obtém o papel.
No Brasil, 65% da produção de papel vem do eucalipto. A monocultura, segundo ambientalistas, é a inimiga maior da biodiversidade. Além disso, os impactos ambientais são mais atrozes. No norte do Espírito Santo, mais de 130 córregos secaram devido à implantação de extensas áreas de reflorestamento com eucaliptos.
A produção de papel demanda cada vez mais terras, o que conduz à apropriação indevida de terras indígenas e de comunidades quilombolas. Para se subtrair das implicações legais, as empresas do setor acenam com criação de empregos e geração de divisas para o Estado. Contudo, o setor é altamente mecanizado, seja nas indústrias, seja no reflorestamento.
O Brasil produz 8 milhões de toneladas de celulose (dados de 2002) e pretende ampliar em 86% a área destinada a essa atividade (de 1,4 milhões para 2,6 milhões de hectares). Desse volume, 30,4% é exportado. Internamente, apenas 37% do papel produzido vai para a reciclagem. A falta de coleta seletiva e de dispositivos legais que puniriam empresas poluidoras emperram o processo de reciclagem no País.
Diante de números fabulosos e de expectativas sombrias, as mulheres foram à sede do governo gaúcho e clamaram por um mundo mais "feminino". Ser feminino no sentido de preocupar-se com as gerações futuras. Quem gera uma vida alardeia-se com mais intensidade por ela.

Fotos e texto: Gilmar Luís.

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

Útero seco

A presidente do STF, Ellen Gracie, não tem útero. É o que supus diante da declaração frígida da autoridade. Questionada sobre a necessidade de mudança nas leis penais brasileiras – que conta com a vergonhosa progressão de regime, a qual pode restringir em 1/6 o período de prisão para um apenado – ela não alterou o tom de voz. Do alto de seu terno amarelo, de cabelos meticulosamente penteados, ela deu de ombros e disparou: “Não se pode alterar os dispositivos legais por causa de emoção”. Ellen se referia ao crime ocorrido no Rio, no qual uma criança de 6 anos, João Hélio Fernandes, fora arrastada e morta por bandidos.

A fleuma de Ellen fez-me perscrutar o íntimo dela. Suas ações, ainda que céleres pelo diminuto tempo de exposição defronte às câmeras, incutiram-me náusea. Num átimo, eu a vi desterrada de útero, física e espiritualmente. Uma mulher sem amor, sem paixão, sem rictos de emoção. Aquele rosto fleumático fundia-se a uma voz metálica, monótona. Ellen espera que a opinião pública amaine e, como de praxe no Brasil, tal crime caía no esquecimento. Ela supõe que haverá o retorno da normalidade. Engana-se. Não a culpo por tal ato falho. Ellen apascenta as vistas com alamedas imaculadas e fortemente vigiadas. Crimes para ela fazem parte do gênio inventivo de escritores. Crimes hediondos, essa categoria arranca de Ellen interjeições de espanto, não pela crueldade em que as vidas são ceifadas, mas pelos estratagemas de tais tramas.

O deputado Fernando Gabeira foi taxativo: “A cada semana, o país assiste a um crime hediondo”. Ellen não ouviu. Quiçá não ouça outros apelos. Um coração seco é como areia de um deserto. Jamais uma gramínea vai subsistir num ambiente desfavorável. Nunca um apelo de mãe vai retumbar num espírito que não aprendeu a amar. Os crimes que desfilham mães se finam nas alcovas dos palácios de justiça. Um choro plangente, para Ellen e outros magistrados, torna-se matéria-prima para vingança. Vingar-se: ação mais abjeta que a morte bárbara de cidadãos, na acepção da justiça nacional. Ranger os dentes diante da própria impotência redunda em censura pública das vítimas. A modorra da justiça entorpece a confiança nas instituições de poder. E faz-me crer que esses instrumentos servem apenas para coagir. E nunca para defender.

Não se poderá mensurar a dor da criança arrastada. Tampouco é possível fazer algo análogo aos pais que permanecem. Até a natureza parece quedar-se por tanto sofrimento. Para os pais, o vento torna-se mais vagaroso, as folhas das árvores ficaram-lhes ásperas. A sepultura do filho que se fora é pequena demais para tantas inscrições de saudades. Os meses que se seguem não farão apenas a relva impedir que se entreleia na lápide o nome da criança e seu curto hiato de existência. O tempo passadio há de erodir a indignação de muita gente. O que, infelizmente, contribui para que Ellen Gracie tenha razão.

Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

Posse da nova Assembléia gaúcha















































31 de janeiro de 2007. Lá fora, 35 graus. Nos corredores da Assembléia Legislativa, no centro de Porto Alegre, os potentes aparelhos de ar-condicionado deixam o ambiente na medida para o desfile de ternos escuros. No início, todos os novos deputados estavam empertigados; no entanto, os cumprimentos efusivos entre colegas e a militância amarrotaram os caríssimos pedaços de tecido cortados a fio.
O novo presidente da AL, o deputado Frederico Antunes (PP), era só sorrisos. Trouxe a família em peso e, com o filho no colo, atendia a inúmeras câmeras - de fotografia e de TV, indistintamente. Aliados tradicionais - como o atual secretário da Agricultura, Celso Bernardi - foram os primeiros a dar sinceros amplexos ao jovem político. Os petistas dissimulavam o fel de sair da presidência do Legislativo gaúcho, ainda que o deputado Fabiano Pereira soubesse que o cargo dado a ele era apenas um tampão.
A sala da presidência da AL já estava insalubre para acomodar políticos, jornalistas e papagaios de pirata. Para piorar a situação, a governadora Yeda Crusius chegou e a tênue organização do local ruiu de vez. Yeda entregou para os dois mais assediados deputados - Fabiano Pereira e Frederico Antunes - um documento no qual estavam os pressupostos de uma vigência mais tranqüila entre Executivo e Legislativo. O novo presidente da AL não perdeu tempo e alçou a palavra "diálogo" em seu prematuro discurso.
Durante 10 minutos, Yeda e os dois deputados riram e atenderam a militantes mais exasperados. Em seguida, dirigiram-se para o plenário, a fim de iniciarem a solenidade de posse dos novos parlamentares do RS. 55 deputados se revezaram no juramento, que, de tão repetitivo, até nos faz esquecer o miasma que a política vem ofertando ao povo.

Crédito do texto e das fotos: Gilmar Luís.

Terça-feira, Janeiro 30, 2007

Rio dos Sinos pede ajuda











Primeiro a desgraça para buscar o remédio. O Rio dos Sinos, cuja bacia hidrográfica compreende 3820 quilômetros quadrados em 32 municípios, agoniza. Enquanto isso, o governo estadual reuniu-se apenas na segunda-feira com prefeitos da região a fim de deliberar sobre um plano de salvação para as águas combalidas. Para quem não lembra, em outubro de 2006 o RS assistiu à morte de mais de um milhão de peixes no Rio dos Sinos, causada por produtos tóxicos oriundos de indústrias do setor coureiro-calçadista. A FEPAM (Fundação de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul) autuou 11 empresas do setor nos municípios de Estância Velha e Portão.
Foram tomadas medidas apenas paliativas para o problema: a construção de três barreiras de contenção no município de Sapucaia do Sul. Para modificar esse quadro, nessa segunda-feira (dia 29 de janeiro), técnicos da FEPAM; a secretária estadual do Meio Ambiente, Vera Callegaro; prefeitos da região e representante da ONG Martim Pescador reuniram-se em São Leopoldo e endossaram um plano de ação com 25 metas para salvaguardar a qualidade da água do Rio dos Sinos. O documento dividiu o rio em 5 regiões, dada a disparidade de elementos poluidores na extensão da bacia dos Sinos. O presidente da FEPAM, Renato Breunig, informou que 89% dos detritos encontrados no rio enquadram-se como esgoto doméstico. "O setor produtivo contribuiu com apenas 11% das emissões poluidoras", ressalta.
Além da mortandade de peixes, o assoreamento é um problema intenso. "Quando os imigrantes alemães chegaram ao RS, eles subiram até a nascente do rio", afirma Henrique Priesto, presidente da ONG Martim Pescador. Atualmente, há trechos com apenas 40 cm de profundidade no Rio dos Sinos.

Fotos e texto de Gilmar Luís. Nas fotos, o senhor é Henrique Priesto, presidente da ONG Martim Pesqueiro; ele mostra à secretária Vera Callegaro a dramaticidade do problema no Rio dos Sinos.